O turista de quatro rodas<\/strong><\/span><\/h2>\nQuando o pessoal do Viaj\u00e3o me convidou para escrever um post no blog, fiquei muito\u00a0empolgado. A maneira como a Amanda, o Marcos e o Tiago encaram o ato de viajar e se\u00a0permitir viajar \u00e9 aberta, sedenta pelo desconhecido e cheia de improvisos. Na minha opini\u00e3o, \u00e9\u00a0desse jeito que uma viagem deve ser.<\/p>\n
Eu fui convidado a dar o meu depoimento para o Viaj\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 porque eu gosto de viajar,\u00a0mas porque quando eu saio para isso, preciso pensar em coisas que pouca gente pensa. Eu\u00a0sou cadeirante, devido a um parto prematuro, e isso faz com que a minha cabe\u00e7a de turista\u00a0funcione de um jeito diferente, mas isso n\u00e3o significa que meus roteiros s\u00e3o frustrados por\u00a0causa disso.<\/p>\n
Eu poderia comentar o qu\u00e3o despreparado o turismo est\u00e1 para a pessoa com defici\u00eancia e\u00a0falar da import\u00e2ncia da acessibilidade nos hot\u00e9is, no com\u00e9rcio e no transporte, mas n\u00e3o \u00e9 esse\u00a0o caminho que eu escolhi para contar a minha hist\u00f3ria de turista.<\/p>\n
O primeiro ponto que quero comentar \u00e9 o fato do despreparo n\u00e3o ser m\u00e9rito do Brasil. Eu\u00a0estive em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul e verifiquei que os problemas que encarei l\u00e1 s\u00e3o os\u00a0mesmos que eu encaro aqui. Isso \u00e9 um problema de investimento e mobiliza\u00e7\u00e3o, sem d\u00favidas,\u00a0mas acredito que antes disso, \u00e9 um problema cultural e de conceito. Pode apostar que \u00e9\u00a0comum voc\u00ea encontrar profissionais do ramo que v\u00e3o afirmar que deficiente n\u00e3o viaja. Afinal,\u00a0\u00e9 tudo t\u00e3o despreparado, que nem vale a pena ele sair de casa. Essa ideia chega a quase ser\u00a0uma verdade, sabia?<\/span><\/strong><\/p>\nO Brasil est\u00e1 acordando para isso lentamente e come\u00e7a a ter alguns projetos mais avan\u00e7ados\u00a0rumo a um turismo acess\u00edvel e para que isso aconte\u00e7a de maneira completa, \u00e9 necess\u00e1rio\u00a0trabalhar solu\u00e7\u00f5es no transporte, na hospedagem, no com\u00e9rcio e ind\u00fastria.\u00a0Acessibilidade para o turista com defici\u00eancia n\u00e3o tem somente a ver com quartos de hot\u00e9is\u00a0adaptados. \u00c9 uma oportunidade do turismo mobilizar a cidade da qual ele faz parte, para que\u00a0o munic\u00edpio trabalhe em conjunto com o mercado tur\u00edstico. Isso pode atrair um novo tipo de\u00a0cliente, gerar neg\u00f3cios e movimentar a economia da cidade.<\/p>\n
Mas enquanto isso n\u00e3o acontece, os desafios encontrados em um destino despreparado v\u00e3o\u00a0continuar ali, e ao meu ver, d\u00e3o um gostinho especial \u00e0 viagem. Pode parecer loucura, mas eu\u00a0gosto de ter a cara de pau de chegar em um lugar que por vezes nunca recebeu um cadeirante.
\nEsse primeiro contato \u00e9 o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o daquele conceito, porque o atendente,\u00a0o taxista, o gar\u00e7om, ou seja l\u00e1 quem for, percebe que um cadeirante sai sim e sem ningu\u00e9m.\u00a0Al\u00e9m disso, volta e meia eu me surpreendo com a gentileza das pessoas.<\/span><\/strong><\/p>\nQuando comento que viajo sozinho, o pessoal arregala os olhos e me pergunta se eu tenho\u00a0coragem mesmo. Acho que a impress\u00e3o seria pior se eu comentasse que eu fico hospedado\u00a0em albergues, hot\u00e9is mais em conta, n\u00e3o planejo meus roteiros e vou com pouqu\u00edssimo\u00a0dinheiro.<\/span><\/strong><\/p>\nEu j\u00e1 passei a virada do ano em S\u00e3o Paulo, no Rio de Janeiro e em Buenos Aires. Visitei\u00a0tamb\u00e9m Foz do Igua\u00e7u e Montevid\u00e9u e em todos os destinos eu n\u00e3o estava acompanhado por\u00a0ningu\u00e9m. E a coisa de voc\u00ea estar sozinho quando viaja \u00e9 muito relativa. Fatalmente voc\u00ea vai\u00a0conhecer algu\u00e9m.<\/p>\n
Quando fui ao Rio de Janeiro, liguei para mais de 8 albergues. Nenhum deles tinha elevador,\u00a0nem quartos grandes e nem banheiros com acessibilidade f\u00e1cil. Eu j\u00e1 sabia disso, ent\u00e3o a falta\u00a0desses elementos n\u00e3o influenciou minha escolha. Eu escolhi o \u00fanico lugar que me disse \u201cN\u00f3s\u00a0n\u00e3o temos elevador e o acesso aos quartos \u00e9 por escada, mas venha que a gente d\u00e1 um jeito\u201d.<\/span><\/strong><\/p>\nComo comentei antes, descobrir como a cidade, ou as pessoas lidam com a quest\u00e3o da\u00a0inclus\u00e3o, ou de apoio ao pr\u00f3ximo, \u00e9 um dos trunfos da brincadeira.<\/p>\n
O Uruguai me surpreendeu nesse sentido. Nenhum dos lugares que eu visitei ali estava\u00a0arquitetonicamente pronto para um cadeirante, s\u00f3 que eu nem precisava pedir ajuda. A\u00a0popula\u00e7\u00e3o se oferecia a me ajudar a atravessar a rua, subir escadas, abrir portas, guardar\u00a0a cadeira em taxis e por ai vai. O mais interessante \u00e9 que os uruguaios que eu conheci n\u00e3o\u00a0faziam nenhum tipo de discrimina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a mim. Nem pelo fato de eu ser deficiente,
\nou por eu ser estrangeiro e n\u00e3o falar espanhol.<\/p>\n
Acabei descobrindo que o gosto pelo turismo de uma pessoa s\u00f3 \u00e9 uma coisa de perfil, n\u00e3o\u00a0de condi\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o e muito menos de destino.<\/span><\/strong> Quem gosta de viajar sozinho n\u00e3o vai se\u00a0importar se est\u00e1 indo a um lugar com luxo, ou rudimentar. N\u00e3o quer saber se o pa\u00eds tem como\u00a0idioma o franc\u00eas, o ingl\u00eas, o espanhol, ou mandarim. A coisa mais importante para quem viaja\u00a0sozinho \u00e9 voltar com boas hist\u00f3rias pra contar, ter conhecido pessoas com pontos de vista bem\u00a0diferentes dos seus pr\u00f3prios e ter vencido desafios imposs\u00edveis de serem vencidos em casa.<\/p>\nEu tenho outro h\u00e1bito de turista, que descobri ser p\u00e9ssimo. Eu n\u00e3o registro minhas viagens.\u00a0Sempre fico com a cisma de me preocupar mais com a foto que tenho que fazer, do que com\u00a0o momento que eu estou vivendo. Isso \u00e9 uma bobagem e a foto faz falta depois. Me redimi\u00a0recentemente e fiz alguns v\u00eddeos em Montevid\u00e9u, que compartilho com voc\u00eas:<\/p>\n